Coluna InterGoiás, Arroz com Pequi: "Seria a origem irônica de um prato caipira?"


Já em 1801, antes mesmo da vinda forçada da Família Real de Portugal para o Rio de Janeiro, fugindo das forças de Napoleão Bonaparte, a Cidade de Goiás, antiga Villa Boa, já inaugurava um dos primeiros projetos de Horto Florestal da História do Brasil. Deve-se considerar que a primeira iniciativa de tal natureza no país, ainda colônia portuguesa, foi na verdade uma iniciativa holandesa, sob a administração de Maurício de Nassau, no século XVII, com a criação de um Jardim Botânico em Recife – PE, visando estudos do ecossistema da Mata Atlântica. Só para se ter uma noção do pioneirismo lusitano em Goiás, o famoso Jardim Botânico do Rio de Janeiro só seria criado por Dom João VI após 1808.

Ainda hoje, ligando a Praça do Coreto à Praça do Moreira, se nomeia uma das ruas do Centro Histórico da Cidade de Goiás como Rua do Horto, devido ao seu uso para se acessar o referido local criado a mais de 200 anos para recebimento, cultivo e distribuição de sementes e mudas, tanto de espécies nativas quanto de novas plantas estrangeiras introduzidas no cenário da região. É possível se identificar, em quadros e mapas deste período citado, na altura do que seria hoje a Universidade Estadual de Goiás – UEG, Campus Cora Coralina, uma estrutura que se destaca na paisagem urbana com um formato que lembra uma “grande estufa” ou cobertura similar. Há também um grande sobrado próximo à essa estrutura que não dá para se precisar se fazia parte do complexo construído. A área teria sido escolhida por nela se localizar uma conhecida fonte de águas férreas que poderiam ser empregadas na irrigação dos vegetais ali cultivados.

Pode chegar a ser contraditório especular que tal estrutura tenha sido uma estufa, pelo fato do clima local ser tropical, com altas temperaturas. Não se identifica precisamente se o material branco das paredes retratadas fosse vidro ou mesmo algum tipo de tecido, neste último caso podendo ter sido utilizado para preservar as mudas, ainda experimentais, de eventuais ataques de aves e insetos do cerrado.

De qualquer forma, foi a partir de tal experiência, cuja duração desconheço, é que se pôde apresentar ao Brasil Central certa diversidade de hortaliças e frutas vindas de além mar, transportadas em caixas de madeira com areia pelos tropeiros que chegavam do litoral. Com o devido perdão de alguma espécie aqui não lembrada, podemos enumerar: do Mediterrâneo, laranjas e limões; da África, tamarindo; da Índia, coco, manga, quiabo, pimentas, cana e o exótico mangustã.

Foi graças a um centro de pesquisa e distribuição como este, inovador e revolucionário para a época, diga-se de passagem, é que se principiou a vocação agrícola de Goiás e depois de todo o Centro-Oeste. Iniciando pelos quintais dos vilaboenses, em suas hortas e pomares, e mais tarde ganhando a vastidão de lavouras, se tornou possível a cultura culinária que combinava o nativo cajuzinho com a cana-de-açúcar, lá do Ganges, para se nascer o doce e a compota, assim como o alfenim e a rapadura moça-branca dos engenhos goianos. E assim vieram o doce de laranja-da-terra, em calda ou cristalizado, e os limõezinhos recheados com doce de leite.

Com o tempo vieram também, de uma certa China, a soja e o arroz. A primeira, no final do século XX, veio só para aqui “engordar de passagem” nas plantações comedoras de cerrado, voltando para os pratos de sua terra de origem onde a apreciam mais que o brasileiro. O segundo, acabou se casando por aqui com um caroço amarelo caipira, e em homenagem a sua velha terra Pequim, se popularizou como “arroz com pequi.”

Parece que mesmo naquela época, sem perceber, os estrangeiros aos poucos, trazendo seus ingredientes, já nos vislumbravam como potencial “celeiro do mundo”. Só não se pode abusar da generosidade da terra. Essa terra incógnita.

Por José Maria
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