Coluna InterGoiás - Araguaia: O Caminho das Águas para o Mundo



Proibida por Decreto Real, a navegação fluvial do Rio Araguaia permaneceu suspensa de 1730 a 1782 em uma demonstração de tentativa em reduzir eventuais contrabandos de ouro para o litoral norte do Brasil, na região amazônica, durante o auge da mineração na capitania. E, apesar de sua liberação após este período, a utilização efetiva desta importante via aquática só veio acontecer de maneira mais ampla na segunda metade do século XIX, ou seja, cem anos mais tarde.

De fato, o mecanismo externo que alavancou os caminhos de uma hidrovia Araguaia-Tocantins, conectando Goiás com o Hemisfério Norte a partir do Porto de Belém do Pará, no que seria a rota mais curta entre o Planalto Central Brasileiro e a Europa, foi simplesmente a maior campanha militar em que os brasileiros já se envolveram, assim como o maior conflito já ocorrido na América Latina: A Guerra do Paraguai (1865-1870).

Apesar de tal confronto ter ocorrido na região platina, na porção sul do continente e distante da realidade do cerrado, o território goiano teve um papel relevante dentro dos bastidores da luta. Afinal, não só se deve considerar que um dos primeiros destacamentos nacionais a se deslocar para o front paraguaio tenha partido do próprio Batalhão de Caçadores do Quartel do XX, como também muitos feridos da contenda foram deslocados até o Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara, ambas instituições de segurança e de saúde, respectivamente, localizadas na Cidade de Goyaz, antiga capital da Província.

E a logística do processo, em alguns pontos do percurso entre idas e vindas de combatentes, enfermos e provisões, se desenvolveu pelos rios navegáveis que conectam Goiás - Mato Grosso do Sul - Paraguai. Alguns militares puderam constatar que o que separava o trecho navegável da Bacia do Araguaia com as vias navegáveis sul-mato-grossenses era nada mais que um ínfimo trecho de terra seca com extensão entre 60 e 70 km. Para um território tão vasto como o interior brasileiro tal distância chegou até a inspirar alguns engenheiros, anos mais tarde, em tentar se aventurar num ousado, e talvez não tão utópico, projeto de construção de um canal que conectasse este tão curto intervalo, entusiasmados que estavam pela grande obra de engenharia que os ingleses estavam executando no Canal de Suez naquela mesma época, 1870, que havia permitido que o Egito se tornasse o Grande Portal de Negócios entre a Ásia (Oceano Índico) e a Europa (Mar Mediterrâneo), e de suma importância para o comércio internacional até hoje.

Da mesma forma que existem canais fluviais que ligam o Mar do Norte e o Canal da Mancha ao Mar Mediterrâneo, cortando a Europa de Norte a Sul, houve quem vislumbrasse uma Bacia do Rio da Prata (Argentina) conectada com a Bacia Amazônica (Pará), através de um corredor de água doce, ora natural ora sob a interferência humana, que cortasse o Brasil Central, tendo o goiano Rio Araguaia (outrora suas duas margens já foram totalmente goianas, antes de sua margem esquerda ser entregue ao lado do Mato Grosso) como sua “avenida principal”. Um ensaio deste projeto foi a tentativa de intensificação da hidrovia do Araguaia entre 1870 e 1890, que após a proclamação da República e o deslocamento do eixo do poder para São Paulo e Minas Gerais, foi

totalmente abandonado. A chegada da ferrovia no início do século XX no sul do Estado acabou por terminar de enterrar o sonho de uma estrada aquática goiana que, se tivesse saído do papel, seria o Grande Elo Mercosul-Amazônia.

Para que se resgate tal visão na atualidade seria necessário um efetivo programa de recuperação das margens do Araguaia para que sua navegabilidade possa retornar à forma dos tempos áureos da grandeza de suas correntezas. Boa vontade aliada com inovação. Antigas ideias, novos métodos, soluções que podem ser permanentes para o potencial goiano. Terra Incógnita.

Foto Curtamais
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